A situação é a seguinte: o carro é ligado e o rádio liga também (ele liga sozinho, aliás, ele nem sequer tem botão de liga/desliga), está em uma estação qualquer, tocando musicas hiper animadas ou hiper melódicas de sei lá quem que faz muito sucesso. O motorista tenta mudar a situação, troca de estação mas todas parecem ser tão invasivas e barulhentas quanto a primeira. E com "todas" digo as que estão salvas no programa de sintonia do próprio aparelho. Uma delas reforçava esteriótipos e ignorâncias através de um pseudo-programa de humor. Outra mostrava relatos comovidos (com uma boa ajuda da melodia do fundo) de milagres de Deus, Jesus ou os dois juntos, pai e filho, mesma pessoa, não sei. As outras tocavam músicas, que no fundo não pareciam ter sido criadas sob diferentes ópticas. Tá, criação talvez seja exagero meu pra essa situação. Ninguém do banco da frente se esforçou para mudar isso (repare que falo como um observador de fora, nessa situação estou possivelmente no banco de trás, ou inventei tudo mesmo). Uma rádio qualquer (talvez a eleita menos pior, ou a que ficou por mero acaso da desistência) continuo tocando o caminho inteiro. O caminho inteiro. O caminho inteiro, no bom volume, aquele fundo acidental, ocasional, não escolhido.
Depois desse caso, pensei rapidamente em algumas coisas parecidas. A televisão é uma delas, a mais óbvia. Mas tem também as propagandas nas ruas por todos os lados, os vendedores que falam com você na calçada, os jornais distribuídos de graça, enfim, completem vocês a lista. Tudo isso nos vem com agressividade e nos colocam em situação de absorver "coisas" (ia chamar de informação, mas achei limitante) de maneira totalmente aleatória. Não tem coerência com nossas opções, humores, visões, escolhas, pensamentos, vontades. Somos atingidos por tudo isso de forma passiva, quase que como uma vaca sendo sugada por carrapatos enquanto como tranquilamente a grama.
Mas não, são somos. Não somos porque isso é generalizar. Tem muita gente que não é (não importam os números). Isso porque a vida tem duas polaridades básicas: passividade e atividade. Nesse caso simples, ser passivo é aceitar o que o rádio o impôs. Simplesmente aceitar todo aquele lixo, mesmo tendo o poder de arrancar o aparelho dali (considerando que ele realmente não tem um botão de liga/desliga). Passar um bom tempo no carro, sendo atrapalhado por aquele barulho, influenciado por aquelas ideias, perturbado por aquela vibração e... não fazer nada, ser passivo. E quanto essa passividade molda uma individualidade mecanizada, massificada, reprodutora de inverdades e preconceitos?
Mas pode-se tirar o rádio dali. Podemos tirar o rádio dali. Podemos, mesmo, sem simbolismos, quebrar a televisão, rejeitar o jornalzinho banal de graça, não pegar o folheto que vai pro lixo depois. Essas ações podem parecer banais, mas são muito significativas. Representam uma postura ativa na prática. Uma vida ativa que, em outras instâncias, definirão a quem (ou a que) nós serviremos. Definirão se passaremos o resto da vida compartilhando e curtindo sentados, ou se vamos de fato vive-la, no risco e na incerteza, na experiências e na descoberta. Definirá, por fim, se seremos ou não seremos. E este, verdadeiramente "ser", é um desafio que só conseguimos adotando uma vida ativa. E uma vida ativa, vejam, tem muito menos a ver com reação do que com ação, e ainda assim menos a ver com ação do que com postura diante do mundo (embora essa postura tenha que ser prática).
Os resultados que uma vida ativa pode trazer são imprevisíveis. E é isso que a faz confiável. Uma vida passiva é previsível e podemos ver seus resultados bizarros espalhadas por aí, na mecanicidade nossa de cada dia, na alienação quase generalizada, nas opiniões prontas, nas vidas infelizes e nas velhices amarguradas. A vida ativa é um risco escolhido, uma liberdade responsável, uma atitude perigosa em relação a si mesmo no mundo. E começa fazendo o rádio desligar.
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