As vezes você lê uma coisa e parece que aquilo que está escrito explica tudo. Não é exagero, simplesmente explica tudo. E sem nenhuma grande corrente de argumentação tudo na vida fica mais claro. Você começa a ver as coisas de outra forma. A ver, inclusive, com um distanciamento positivo. Ver as coisas com uma calma e compreensão profunda, sem aquela aflição do comprometimento e da incompreensão. Perceba, não falo aqui de entender, mas de compreender. Não falo da revelação dos mistérios da vida, mas de uma aceitação deles que permite compreender certas manifestações mais ou menos lógicas. Essa coisa lida é como que se alguém tivesse palavrificado o que dorme no seu íntimo.
Mas a explicação de tudo é passageira. Claro, não se pode explicar tudo assim, apenas numa coisinha escrita. É um tudo só daquele momento, e algum tempo depois você volta a perceber que não entende nada. Volta a ser engolido pelo "mistério das cousas". Volta a concordar com Sócrates, assumindo-o como o único sábio.
Porque as certeza nos escapam assim, por entre os dedos? Porque minutos depois de ter descoberto o sentido da vida já estamos, sem querer, pensando no jantar? Falta-nos uma constância. Mesmo que essa constância seja uma inconstância coerente, algo que rode com diversidade e fluidez em volta da necessidade vital de descobrir os mistérios. Ou de aceita-los com compreensão. Ou de descobrir a vida em si?
Lendo com comprometimento vital um livrinho fininho do Sêneca, me peguei achando tantas dessas coisas que explicam tudo. Cada final de capitulo era um deslumbre de compreensão, a abertura de uma fenda profunda pra cair em queda livre, um distanciamento das coisas que me relaxava. Mas logo depois tudo passou. E eu fui folhear o livro em busca daquelas mesmas frases, em busca daquela mesma sensação, daquela mesma compreensão. Nada estava mais lá. Nem sequer as frases estavam mais lá. Eu já era outro, mesmo apenas um dia depois.
Me deparei de novo com:
E com:
E me deparando agora, sinceramente, sem premeditações do que aconteceria, afirmo: me cava buracos na alma, de novo. Não esperava, queria a certeza da minha suspeita que a coisa escrita não me causaria mais nada depois daquele primeiro encontro. Mas causa sim. Agora mesclado com memória. Já contaminado com as sensações anteriores. Mas ainda assim, causa.
Eu realmente tenho a sensação de tudo é explicado. Fico com a calma de saber das coisas. A paz de descobrir o que já existe. Apenas um fragmento e o meu mundo se expande até eu perder a noção de quanto. E essa expansão duvido que volta a retrair. Sou maior agora, mesmo que amanhã nada disso mais faça sentido.
Mas a explicação de tudo é passageira. Claro, não se pode explicar tudo assim, apenas numa coisinha escrita. É um tudo só daquele momento, e algum tempo depois você volta a perceber que não entende nada. Volta a ser engolido pelo "mistério das cousas". Volta a concordar com Sócrates, assumindo-o como o único sábio.
Porque as certeza nos escapam assim, por entre os dedos? Porque minutos depois de ter descoberto o sentido da vida já estamos, sem querer, pensando no jantar? Falta-nos uma constância. Mesmo que essa constância seja uma inconstância coerente, algo que rode com diversidade e fluidez em volta da necessidade vital de descobrir os mistérios. Ou de aceita-los com compreensão. Ou de descobrir a vida em si?
Lendo com comprometimento vital um livrinho fininho do Sêneca, me peguei achando tantas dessas coisas que explicam tudo. Cada final de capitulo era um deslumbre de compreensão, a abertura de uma fenda profunda pra cair em queda livre, um distanciamento das coisas que me relaxava. Mas logo depois tudo passou. E eu fui folhear o livro em busca daquelas mesmas frases, em busca daquela mesma sensação, daquela mesma compreensão. Nada estava mais lá. Nem sequer as frases estavam mais lá. Eu já era outro, mesmo apenas um dia depois.
Me deparei de novo com:
"Pensas, por ventura, que navega muito aquele de quem uma violenta tempestade assalta o barco, deixando-o á deriva, para um lado e para o outro, a sabor de ventanias enfurecidas? Ele não navega muito. Só balançou o bastante."
E com:
"Não há motivo, por conseguinte, para teres alguém agradecido pelos teus serviços, já que, quando lhe destes alguma atenção, foi não para estares perto dele e, sim, porque não toleras a ti mesmo."
E me deparando agora, sinceramente, sem premeditações do que aconteceria, afirmo: me cava buracos na alma, de novo. Não esperava, queria a certeza da minha suspeita que a coisa escrita não me causaria mais nada depois daquele primeiro encontro. Mas causa sim. Agora mesclado com memória. Já contaminado com as sensações anteriores. Mas ainda assim, causa.
Eu realmente tenho a sensação de tudo é explicado. Fico com a calma de saber das coisas. A paz de descobrir o que já existe. Apenas um fragmento e o meu mundo se expande até eu perder a noção de quanto. E essa expansão duvido que volta a retrair. Sou maior agora, mesmo que amanhã nada disso mais faça sentido.
(trechos do livro "A brevidade da vida", de Sêneca)
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