22.4.13

poéticas do cotidiano

Em uma fria tarde de domingo, surge uma proposta. Vamos tomar um chá? Um chá de que? Hmm... deixo ver... hortelã? Maravilha! Já no meio da apreciação, lê-se na embalagem: "Seja lá qual for sua preocupação agora, o Chá Leão Hortelã vai dizer 'ah, não esquenta, respira fundo'. A hortelã é sempre otimista, vê lado bom em tudo. Por isso é tão gostoso estar com ela. Hortelã é suspiro depois do sufoco. É tirar o sapato apertado. É aquele vento que escapa da janela e passa pra lembrar que, sim, a vida é boa.".

Uma nova significação para aquele chá de hortelã! Já era um momento único e especial: uma tarde tranquila e fria, ótimas companhias, o sabor e o conforto do chá quentinho, boas conversas místicas-filosóficas... Mas aquela frase publicitária, carregada de uma poética quase clichê, trouxe algo mais para aquele momento. Trouxe a leveza da possibilidade de significar cada pequena coisa, de tornar importante o que na aparência é trivial, ou melhor, reconhecer a importância na profundeza dessa aparência. Um chá de hortelã não é apenas folhas e ramos moídos de Mentha piperita importada da Alemanha imersos em água fervida. Um chá de hortelã é tudo o que quisermos que ele seja, é tudo o que somos capaz de sentir com ele. Um chá de hortelã foi, naquele momento, uma substância fundamental que permeava os corpos para os fluxos do amor e da amizade.

Constatar essas pequenas poéticas cotidianas e valorizar a vida (não no sentido mais comum, de "dar" valor, mas em um sentido mais profunda, de "criar" valor, de valorar) nos coloca em uma dimensão poética de viver, nos coloca um pouco acima do mundo comum, como que flutuando há alguns centímetros do chão, como se o ar que entra nos pulmões nos enchesse como uma bexiga que, solta, vai seguindo um fluxo leve. Tudo pode passar, e de fato passa porque sempre passa e passando é que as coisas existem, de forma abrupta, imperceptível, sem nenhum significado. Mas tudo pode, também e na mesma proporção, ser absolutamente precioso. Só é preciso um pouco de esforço criativo para tirar poéticas de dentro de minusculas moléculas que pairam em volta de todas as coisas. Afinal, já disse Manuel de Barros, que "quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando".

A tarefa - de encontrar as poéticas do cotidiano - exige muita dedicação ao viver contemplativo, mas está com certeza ao alcance de todo aquele que respira e sente a ponta dos dedos da mão como que num limiar de coceguinhas, querendo alcançar o mundo e tocar a essências das coisas. Poetizar é viver. E já que o Manuel está por aqui, fechamos com o seu relato: "Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei...".

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