28.3.13

verdade, mentira e a poética

Em uma palestra sobre performatividade com alguns integrantes de grupo Teatro do Vestido, de Portugal, me surge a questão: Qual a relação da verdade e da mentira da performatividade (e portanto no teatro, na arte, na poética, etc)? Isso porque durante todo o percurso da palestra era instigante e desesperador ver o limiar entre verdade e mentira ser quebrado (ou seria ignorado?). Foi porosa a relação entre fatos reais e invenções poéticas, evitando qualquer tipo de garantia de realidade nas confissões/depoimentos. Isso gerou uma potência poética, um deslocamento do ouvinte de seu lugar cotidiano, uma significação especial. É como que se um fato pequeno, comum, quase insignificante (ou até inexistente) na linha histórica ganhasse uma amplitude gigante, um aumento por lupa, uma repintura com novas cores (ou somente uma pintura mesmo).

Afinal, o que é (ou aonde fica) a mentira na arte? Talvez seja, de fato, nada mais do que uma invenção poética? O caso é complexo e temos que considerar um fato importante, na palestra tratamos de performatividade, portanto de um intensão do ator para a verdade, para a retirada dos véus da ilusão, isso  possivelmente com o uso de depoimentos reais. A vida se mistura, proposital e abertamente, como ingrediente da criação artística. Diferente de outras linguagens que escancaram a ficção, alias, se baseiam exatamente nela. Então temos aqui o seguinte quadro de análise: a não-ficção como ponto de partida e, portanto, a presença das tais verdades e mentiras. Mas falar de verdade e mentira na arte é quase absurdo. A poética permite que a dissolução dessas linhas por se pautar sempre no imaginário do criador, repleto de fatos reais, irreais, inventados, reinventados, sonhados, vividos... E para quem se propõe a receber essa poética, a se dissolver com/por ela, o que importa o que realmente aconteceu nesse mundo tridimensional? Lembro-me do poema de Álvaro de Campos (ou Fernando Pessoa?):

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Coitada da Margarida, que acha que fica tudo sem efeito. Na casa dela não se fia a poesia, a vida com certeza fica bem mais sem graça, mais insensível, menos vivida. A invenção, o exagero, a mentirinha (porque não?) fazem parte da poética. Mas sem nunca perder a busca pela verdade (ela mesma, a absoluta). Mas isso é a camada mais profunda, que a gente não capta pelo intelecto, mas sente; sente tanto que chega a ter certeza. E a certeza sentida pode ser mentira? Eis aqui, talvez, uma verdade.

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